quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Duras despedidas

As despedidas fazem invariavelmente parte da experiência de todo o emigrante. Basta olhar à volta nos aeroportos ou noutras gares europeias. Partilham-se abraços, expressando antecipadamente a saudade que já se tem, mesmo quando a outra pessoa ainda não partiu. E ontem cá em casa, não foi excepção.
Acho que ninguém gosta de despedidas...mas uma vez mais ontem, lá foi a Rute para Portugal e eu fiquei cá. Acho que é das piores experiências que temos vivido enquanto casal...! E cada despedida é gravada na memória de forma particular...e a cada despedida, relembro tantas outras que já passámos.
Lembro-me da primeira viagem que fiz para a residência, a primeira já casado e sem a Rute. Despedi-me da Rute no aeroporto e pareceu-me ter sido a pior de todas as despedidas..."Porque um Homem também chora quando assim tem que ser..."(como diz o abrunhosa)... dei liberdade àquela lágrima irritante e incontrolável do ultimo minuto...! Foi duro...
Repetiu-se viagem após viagem...tendo sempre como cenário uma entrada para o taxi ou uma plataforma de aeroporto...onde os olhares se cruzam já após a passagem dos controladores e onde ao virar de uma parede, a saudade ganha outra dimensão.
As sucessivas despedidas que, apesar de serem cada vez mais em número, custam tanto como se fosse a primeira. Fica um vazio enorme e perdemos metade daquela estabilidade que somos enquanto casal.
Ontem não foi excepção...e a despedida foi tão ou mais dificil como a primeira...

Talvez porque o Karma também deve ser solidário com isso, tive um dia particularmente caótico (que  acabou com a extracção de 2 corpos estranhos gástricos num cão que além desses 2 tinha mais 5...todas formas de bolo em silicone...e que afinal decidi enviar para cirurgia dado os esforços de extracção estarem a ser em vão). Com isso tudo, a disponibilidade mental foi reduzida. Ainda assim, tudo voltou quando cheguei a casa às 23horas, sem ter a Rute à espera e sem ter o jantar meticulosamente preparado como nos últimos 14 meses...e nas pequenas coisas se percebe a importância que uma vida a dois tem, sobretudo quando estamos emigrados e quando aprendemos a viver a dois em 28m2...

Como dizia o Fernando Pessoa, "Pedras, guardo-as todas e um dia construo um castelo". Quero acreditar que cada despedida é uma pedra e que todo este sacrifício de emigra vai valer a pena na construção (já começada) deste castelo!




p.s. "The Lovers" statue esculpida por Paul Day e um dos ícones da estação de St. Pancras em Londres.




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