Salut! ;)
Aproveito mais um dia de folga para, entre pausas de estudo, vir aqui dizer um Olá!
Vida aborrecida por Paris, sobretudo em dias de folga! O calor está a desaparecer e a chuva já deu sinais de si.
Sem a Rute por cá, estudo, descanso, estudo e estudo. Felizmente há pausas po Facetime e para colmatar a ausência! Tenho-me desenrascado (sobretudo na cozinha...) e até já fiz ceviche (comandado à distância pela minha Ruth Oliver particular!).
Hoje falo-vos da vida de residente...! Ontem fui ajudar a C., a nova residente de cirurgia, a fazer mudanças...e isso fez-me pensar no quanto a vida de residente pode ser complicada.
Esta semana foi o "pot de départ" dos internos 2014/2015 que acabam oficialmente agora dia 31. E com eles acaba também o A., um dos residentes de cirurgia e sai ainda a E., uma das nossas assistentes de medicina que vai fazer a residência. Um rodopio nos serviços, já típico no começar do ano "lectivo" e que justificou uma "DANCE PARTY"
No seu discurso do fim de residência, o A. sai-se com uma frase particularmente interessante...
"A residência é uma fortaleza "cercada", os que estão fora querem entrar...os que estão dentro querem sair"
E a residência acaba por ser mesmo um pouco isso...
Desde os tempos de estudante e desde que soube da existência de residências (que na altura não eram minimamente faladas), que sempre pus a residência de Medicina Interna (não dava para Cirurgia e as outras áreas não me despertavam tanto interesse) como o cume da minha carreira profissional. Lembro-me que tomei isso como objectivo máximo desde bem cedo e obriguei-me a fazer estágios à esquerda e à direita...fiz o internato de um ano aqui e fiz o phD, em parte para me enriquecer o CV para essa grande meta. Consegui-a, felizmente, sem ter que ir a muitas entrevistas. Entrei nessa fortaleza que o A. mencionou. Mas isto de ser residente não é fácil e sim, quero sair dela o quanto antes.
É uma experiência profissional única, vemos imensos casos, trabalhamos com supervisão e realisamo-nos como nunca até então. Contudo, não temos capacidade para mais nada...! É um interregno na nossa vida onde o estudo impera e onde a nossa capacidade de adaptação e inteligência passa por uma prova enorme (bem ao jeito do Fort Boyard!). Vemos 90% dos amigos a casar e a ter filhos, com um emprego estável e a fazer programas de família ao domingo e nós acabamos por trocar tudo isso pelos 2 volumes do Ettinger, pelos 2 ultimos numeros do Kirk's e pela fisiologia....! E não...não é agradável!
A Rute desde sempre soube do que isto era e de quais eram os meus objectivos e tem-me dado um apoio enormíssimo...! Acho que sem ela, tudo isto era muito mais dificil. Tal como eu, olho à volta para os meus co-residentes e todos temos histórias de vida inigualáveis com um mesmo ponto comum...lutámos que nem uns mouros para entrar nesta fortaleza...!
Mas e agora dentro da fortaleza?
Enquanto residente, não temos casas de luxo (dormimos em estúdios que nos levam quase metade do salário, sobretudo se for numa grande metrópole), não comemos comida da mãe (comemos maioritariamente pré-cozinhados) e tentamos sempre ter um sorriso na cara, mesmo quando temos 50 relatórios pendentes ou 35 chamadas telefónicas para fazer, acabando às 22h30 a falar com a Mme porque "o kiki hoje comeu menos 20g que ontem acha que é grave Doutor?" ou "a gatinha hoje fez 2 jactos de xixi e ontem fez um...acha que está a sofrer?"
Mas a vida da fortaleza vale tanto a pena que só por isso, todas as dificuldades passam de "major" a "minor" e fazem-nos de outra fibra.
Todas as "fortalezas" têm disto...! Olho à volta, para os amigos na europa que estão a passar ou já passaram por isto...como o N. ou o ZM que tiveram que aprender outra língua de base quase aos 30 anos para serem cardiologistas...como o D. que à força de querer ser especialista em cirurgia, se vê no norte da Europa onde faz noite metade do ano...como a D. que viveu quase 7 anos longe do namorado (agora marido)... como a M. que trocou o sol de Lisboa pela chuva escocesa, como a D. que se viu a descobrir Demodex espanhóis trocando Lisboa pelas Ramblas por 3 anos ou como a C. que se viu na áfrica do Sul a cumprir o sonho de ser especialista em medicina interna...! Como eles, lembro-me de tantos outros amigos e conhecidos que passam pelo mesmo espalhados pelo Mundo.
Cada um de nós tem mesmo uma história para contar...e é por isso que me enervo com ideias de ordens e bastonárias em querer criar titulos proprios de especialistas em Portugal...Criar "fortalezas" de papel onde nem há porta de entrada ou saída....enervo-me com comentários de colegas que dizem "para quê o esforço?"..."Vale bem a pena...a avaliar como vai o país...se quiseres voltar ninguém te vai valorizar... não sei o que andas a fazer no estrangeiro". Comentários destes, apesar de escusados, só me dão mesmo mais força para continuar o caminho e provar que vale a pena o esforço, o sacrifício e o trabalho de procura pela excelência. E eu acredito que Portugal é país para nos receber depois do esforço.
Hoje já passei o meio...já me sinto a caminho da saída da fortaleza...mas ainda falta um bom pedaço de "estrada"! Continuarei com o mesmo sorriso (mesmo se no fundo o caminho não seja fácil), na luta pelo sonho.
E sabe bem partilhar estas histórias de vida, falar com os amigos que passam o mesmo e perceber que não estamos sozinhos nesta aventura...
E espero que continuem a existir tantas fortalezas como guerreiros, prontos a enfrentá-las! E se forem guerreiros portugueses prontos a voltar à pátria após a passagem pela Fortaleza...então ainda melhor!